Cada um no seu quadrado

 

Estou um pouco cansada de temas confortáveis neste blog e também de ter que presenciar (e engolir) tanta desigualdade e intolerância nos últimos tempos. Vivemos um momento, inadmissível para grande parte da sociedade, diga-se de passagem, de ascensão das camadas populares, onde pobres passaram a ter acesso ao que antes era exclusivo, e isso incomoda. E os incomodados têm aversão à mistura, essa é a verdade.
Vamos falar de segregação? Mais precisamente da segregação urbana.

Vou começar este post com uma pergunta: Você se importa? Sabe por que pergunto isso? Porque o que mais me incomoda nessa situação absurda é o fato de muitas pessoas simplesmente ignorarem a existência de outras pessoas (sim, outros seres humanos, de carne e osso) vivendo à margem da sociedade.

E segregação urbana nada mais é que o loteamento forçado das cidades privilegiando os que podem bancar essa conta, em diversos padrões. Só que o grande problema disso tudo é que a segregação tende a enfraquecer as relações sociais, a tolerância e o contato com o diferente. O conceito de cidade perde totalmente seu sentido sem essa troca que só teria a agregar valor diante de uma realidade injusta e cruel a qual fazemos parte. Sim, fazemos parte disso tudo e não podemos simplesmente virar as costas.

Como as crianças criadas em condomínios fechados, que na maioria dos casos não têm praticamente nenhum contato com as áreas mais pobres da cidade, irão encarar essa desigualdade no futuro? Que geração de pessoas alienadas estamos formando para o nosso país? Por que elas se importariam se vivem dentro da bolha e bem protegidas de todos os perigos ao redor? Pois esta proteção é irreal, ela deseduca e ela não prepara uma pessoa para a vida fora dos muros dos condomínios. Conheço pais de crianças com dez anos de idade que se surpreenderam ao verem que seus filhos não sabiam andar nas ruas! Isso mesmo, são crianças que só saem de casa dentro de um carro e que nunca precisaram caminhar por calçadas, percebem a gravidade dessa situação?

alphaville: 64 km de muros que separam o condomínio do mundo real | imagem: the guardian

Precisamos de mais contato humano em nossas vidas, a violência urbana existe e ninguém quer conviver com ela, mas segregar só aumenta os contrastes. É no convívio que conhecemos de perto as diferenças e temos chances reais de reverter, mesmo que pontualmente, injustiças sociais de diversas naturezas.

E vou deixar aqui uma dica aos que se acham muito entendidos sobre as questões urbanas, que criticam sem qualquer fundamento as mudanças radicais e necessárias as quais estamos passando aqui em São Paulo, com aquele já conhecido ódio político no coração e muito pouco interesse no coletivo (já que essas pessoas não se enxergam fazendo parte de algo maior), procurem filtrar melhor as bobagens prontas que chegam até você.

Sugiro também os textos da arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, profissional altamente conceituada e comprometida com as questões urbanas contemporâneas.

E termino com uma frase da antropóloga brasileira e professora da Universidade de Oxford, Rosana Pinheiro-Machado, que não poderia ser mais conveniente.

“O Brasil sempre foi avesso e segregado. Apesar de ter a ideologia da mistura, na verdade sempre foi o pior dos apartheids”.

Confira o texto “Why are we building new walls to divide us?” na tradução: “Por que estamos construindo muros para nos separar?” do The Guardian, na íntegra, que cita os muros de Alphaville como um dos maiores exemplos de segregação social e urbana aqui no Brasil.

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