Aos futuros arquitetos

periferia de são paulo | imagem: lalo de almeida

Já que vários estudantes de arquitetura acompanham o blog, vou aproveitar para abrir aqui meu coração e deixar algumas dicas a vocês, sobre a nossa profissão, sempre tão mal compreendida aqui no país.

Somos agentes de transformação e obviamente que apenas uma minoria de nós irá projetar os edifícios que entrarão para a história, mas podemos atuar localmente e em pequena escala, pois são essas mudanças que causam os maiores impactos à sociedade.

Em primeiro lugar, um arquiteto (mais que qualquer outro cidadão) não pode ser indiferente às questões urbanísticas à sua volta. É preciso estar muito bem informado e esclarecido para não acreditar em qualquer bobagem que se lê por aí (e olha que não são poucas).

Um arquiteto precisa se comprometer com a cidade de alguma forma, é muito fácil vomitar opiniões prontas em uma conversa se você não conhece o mundo real, o qual a maior parte da população faz parte. Você já visitou os bairros da periferia da sua cidade? Então sugiro que faça isso, mas vá de transporte público, para vivenciar de alguma forma o dia a dia dessas pessoas, duvido que você volte o mesmo frente à indiferença e ao abandono a esses locais.

Questione sempre e explore vários pontos de vista. Quando se fala em sustentabilidade tudo isso fica mais claro, eu explico. Para ser sustentável, qualquer empreendimento humano precisa ser ambientalmente correto, culturalmente aceito, economicamente viável e socialmente justo, então é só levar isso para as cidades. Por exemplo, um novo shopping center será construído, como você, arquiteto, deveria enxergar isso? Ah, que legal, mais lojas para eu consumir? Péeeee, resposta errada! Aí vão algumas questões pertinentes a esse nosso mundinho:

Quais os impactos que uma construção desse porte poderá causar nesse entorno? Inúmeros, desde o aumento significativo do trânsito de veículos, até os impactos na vizinhança e também os ambientais.

E socialmente, o que representa um shopping center? Basicamente a imposição ao consumo. A arquitetura desses espaços enclausura o usuário e o incentiva a comprar e comprar. O comércio é importante para a economia? Claro que sim, mas essa construção não poderia ser diferente? Não poderia integrar mais as lojas à cidade ao invés de segregar e se fechar em uma enorme massa de concreto? Além disso eles vendem a falsa sensação de segurança, dando as costas aos problemas sociais e endossando o isolamento e a segregação como solução à essa realidade.

Um ótimo exemplo é o Shopping Cidade Jardim, em São Paulo. Direcionado a um público exclusivo de alto padrão, o shopping simplesmente dispensou o acesso a pedestres, já que seus usuários não costumam abrir mão de seus carros. Sua localização, em plena Marginal Pinheiros, também é intimidadora e não facilita em nada aos que queiram chegar de transporte público.

acesso ao shopping cidade jardim | imagem: skyscrapercity

A arquitetura deve ser para todos, basicamente porque as cidades deveriam ser, pena que apenas uma pequena parcela da população tem acesso aos seus benefícios. E isso é fácil de se notar com aquela visitinha à periferia que sugeri anteriormente, afinal, onde encontramos as áreas mais arborizadas, os equipamentos urbanos mais eficientes, assim como as melhores condições de saneamento básico e transporte coletivo?

As áreas mais carentes precisam de mais atenção e investimentos que as demais, isso é fato, e aí que entra o seu comprometimento político, jovem arquiteto, pois serão nessas discussões que você perceberá que existem muitas pessoas, inclusive do seu convívio social, que não querem que isso aconteça e que preferem que a desigualdade entre esses dois mundos tão distintos continue a existir, mantendo assim os privilégios de sua posição diferenciada.

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